Guia prático

Módulo 4 · Guia prático

Ferramentas de liderança, gestão de pessoas e condução de mudança organizacional na saúde da PMDF.

GUIA PRÁTICO - MÓDULO 4: LIDERANÇA E MUDANÇA ORGANIZACIONAL

Referência Rápida para Gestores de Saúde da PMDF


SOBRE ESTE GUIA

Objetivo: consulta rápida de ferramentas de liderança, gestão de pessoas e condução de mudança organizacional em sistemas de saúde.

Uso recomendado: planejamento de transformações, construção de coalizões, comunicação estratégica, gestão de resistências, desenvolvimento de projetos aplicados.


GESTÃO, COMANDO E LIDERANÇA: TRÊS FUNÇÕES DISTINTAS

GESTÃO = Fazer o sistema atual funcionar bem
  - Alocar recursos, monitorar desempenho, resolver problemas

COMANDO = Direção formal em contextos estruturados
  - Dar ordens, exigir cumprimento, responsabilizar por resultados

LIDERANÇA = Influenciar pessoas para objetivos compartilhados
  - Criar significado, construir compromisso, mobilizar energia

Erro mais comum: Tentar comandar onde precisa liderar.

Quando funciona comando: Tarefa clara, autoridade reconhecida, obediência é expectativa legítima.

Quando precisa liderança: Contextos adaptativos, profissionais autônomos, mudança organizacional, resistências previsíveis.


LIDERANÇA EM BUROCRACIAS PROFISSIONAIS

A Natureza Peculiar de Organizações de Saúde

Burocracia mecanicista (linha de montagem, comando operacional):

Burocracia profissional (hospitais, sistemas de saúde):

Tensão Estrutural na PMDF

HIERARQUIA MILITAR          vs.       HIERARQUIA CLÍNICA
(Comando-Geral → DAS/DAO → Oficiais)  (Especialistas → Generalistas)

         Autoridade formal           vs.     Autoridade técnica
              Obediência              vs.     Autonomia profissional
        Uniformidade/padrões          vs.     Julgamento individualizado

Essa tensão não é defeito a ser corrigido — é característica estrutural a ser gerenciada.

Motivação de Profissionais de Saúde

Motivadores intrínsecos (80% dos médicos):

Motivadores extrínsecos (11,7% como principal):

Implicação prática: Programas de “incentivo” baseados exclusivamente em remuneração frequentemente fracassam. Conecte transformações ao que profissionais genuinamente valorizam.


OS 8 PASSOS DE KOTTER (CHECKLIST DE DIAGNÓSTICO)

Não use como receita sequencial — use como checklist: o que está faltando?

Passo 1: CRIAR SENSO DE URGÊNCIA

O que é: Tornar a crise visível e sentida (não apenas para quem vê orçamento).

Como fazer:

Armadilha: >50% das iniciativas falham já neste passo por não criar urgência suficiente.


Passo 2: CONSTRUIR COALIZÃO ORIENTADORA

O que é: Equipe com credibilidade, competência e influência para liderar mudança.

Composição PMDF:

Erro comum: Coalizão apenas de “aliados naturais”. Inclua céticos construtivos que antecipam resistências.


Passo 3: DESENVOLVER VISÃO E ESTRATÉGIA

O que é: Articular futuro desejado de forma específica, inspiradora e crível.

Exemplo vago: “Seremos referência em saúde militar no Brasil”

Exemplo concreto: “Em 5 anos: 100% beneficiários atendidos com espera ≤30 dias especialista, ≤60 dias cirurgia, satisfação ≥85%, redução terceirização para 70%”


Passo 4: COMUNICAR A VISÃO DE MUDANÇA

Regra: Líderes tipicamente subcomunicam por fator de 10.

Comunicação eficaz:


Passo 5: EMPODERAR AÇÃO AMPLA

O que é: Remover obstáculos que impedem pessoas motivadas de agir.

Tipos de obstáculos:

Ação: Identifique bloqueios e atue sobre eles.


Passo 6: GERAR VITÓRIAS DE CURTO PRAZO

Por quê: Mudanças levam anos; sem vitórias visíveis em 6-12 meses, energia se dissipa.

Como:


Passo 7: CONSOLIDAR GANHOS E PRODUZIR MAIS MUDANÇA

Armadilha: Declarar vitória cedo demais.

Realidade: Primeiros anos apenas estabelecem fundação; mudança precisa ser aprofundada e expandida.


Passo 8: ANCORAR MUDANÇAS NA CULTURA

O que é: Mudanças só se sustentam quando se tornam “o jeito como fazemos as coisas aqui”.

Como:


MODELO ADKAR: MUDANÇA NO NÍVEL INDIVIDUAL

A - Awareness (Consciência): POR QUÊ mudar é necessário
D - Desire (Desejo): QUERER participar
K - Knowledge (Conhecimento): saber COMO mudar
A - Ability (Habilidade): CONSEGUIR implementar
R - Reinforcement (Reforço): SUSTENTAR ao longo do tempo

Diagnóstico Individual de Resistências

SE A RESISTÊNCIA É… PROBLEMA DE… SOLUÇÃO
“Não vejo necessidade de mudar” Awareness Comunicação sobre razões da mudança
“Entendo mas não quero” Desire Engajamento sobre benefícios
“Quero mas não sei como” Knowledge Treinamento e capacitação
“Sei mas não consigo” Ability Prática, coaching, remoção de obstáculos
“Consegui mas voltei ao antigo” Reinforcement Reconhecimento, acompanhamento

Use ADKAR para diagnosticar: onde esta pessoa está travada?


TIPOS DE RESISTÊNCIA

Resistência Técnica

Baseada em: Preocupações legítimas sobre viabilidade (“isso não vai funcionar porque…”)

Como lidar: Investigar seriamente, incorporar ao desenho da mudança quando válida.


Resistência Política

Baseada em: Ameaça a interesses estabelecidos (poder, recursos, status)

Manifestação: Raramente expressa abertamente; sabotagem sutil, demoras, argumentos técnicos que mascaram interesses

Como lidar: Negociação baseada em interesses, construção de compromissos.


Resistência Cultural

Baseada em: Incompatibilidade com valores arraigados (“não é assim que fazemos as coisas”)

Característica: Mais difícil de superar (opera no nível de identidade)

Como lidar: Mudança cultural gradual, conexão com valores profundos, honra ao passado.


MAPEAMENTO E GESTÃO DE STAKEHOLDERS

Matriz Poder × Interesse

BAIXO INTERESSE ALTO INTERESSE
ALTO PODER MANTER SATISFEITO
Órgãos de controle
Setores administração geral
Comunicação suficiente
GERENCIAR DE PERTO
Comandantes
Associações de classe
Prestadores principais
ENGAJAMENTO INTENSIVO
BAIXO PODER MONITORAR
Maioria silenciosa
Beneficiários passivos
Comunicação básica
MANTER INFORMADO
Profissionais de ponta
Beneficiários ativistas
Comunicação detalhada

Estratégias por Quadrante

Gerenciar de Perto:

Manter Satisfeito:

Manter Informado:

Monitorar:


NEGOCIAÇÃO BASEADA EM INTERESSES

Os 4 Princípios (Harvard Negotiation Project)

  1. Separar pessoas do problema
    • Ataque o problema, não a pessoa
    • Seja duro com o problema, suave com a pessoa
  2. Focar em interesses, não posições
    • Posição: “Quero X”
    • Interesse: “Por que quero X?” (segurança, reconhecimento, controle)
  3. Gerar opções de ganho mútuo
    • Criatividade antes de decisão
    • Expandir bolo antes de dividir
  4. Usar critérios objetivos
    • Dados, benchmarks, precedentes
    • Despersonaliza a decisão

Aplicação aos Quadrantes de Stakeholders

Com prestadores resistentes (Gerenciar de Perto):

Com comandantes preocupados com orçamento (Gerenciar de Perto):

Com profissionais resistentes a protocolos (Manter Informado):


COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA

Comunicação Informativa vs. Estratégica

INFORMATIVA ESTRATÉGICA
Transmitir dados Mudar percepções
Anunciar decisões Construir compromisso
Relatar progressos Mobilizar ação

Equipes que alinham “história de mudança” aumentam em 6× as chances de sucesso.

Estrutura de Narrativa de Mudança

  1. Situação: Onde estamos hoje (honestidade sobre problemas)
  2. Complicação: Por que não podemos continuar assim (urgência)
  3. Resolução: O que faremos diferente (visão)
  4. Benefícios: Como será melhor (para diferentes stakeholders)
  5. Caminho: Como chegaremos lá (plausibilidade)
  6. Honra ao passado: Reconhecimento de contribuições anteriores

Elemento 6 é frequentemente negligenciado: Narrativas que implicam “tudo estava errado antes” alienam pessoas que construíram o sistema atual.

Comunicação Diferenciada por Público

PÚBLICO FOCO DA MENSAGEM
Liderança superior Alinhamento estratégico, sustentabilidade, indicadores de resultado
Gerência média Expectativas específicas, recursos disponíveis, apoio para implementação
Linha de frente “O que muda para mim”, benefícios concretos, resposta a preocupações
Beneficiários Qualidade do atendimento, acesso, direitos

ROTEIRO PRÁTICO PARA PROJETO APLICADO

FASE 1: Diagnóstico de Prontidão


FASE 2: Construção de Coalizão


FASE 3: Comunicação Estratégica


FASE 4: Implementação Gerenciada


FASE 5: Sustentação


GESTÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Determinantes de Retenção (Top 3)

  1. Satisfação no trabalho
  2. Oportunidades de desenvolvimento de carreira
  3. Equilíbrio vida profissional/pessoal

Note: Salário não aparece entre os três primeiros (mas precisa ser competitivo).

Intervenções com Evidência de Eficácia


CHECKLIST PRÉ-IMPLEMENTAÇÃO DE MUDANÇA

Antes de iniciar transformação organizacional significativa:

Fundação Sólida

Capacidade de Execução

Comunicação e Engajamento

Gestão de Resistências

Sustentabilidade


AUTOAVALIAÇÃO: MATURIDADE EM LIDERANÇA DE MUDANÇA

Instruções: avalie-se (0 = inexistente, 10 = excelente).

CAPACIDADE NOTA (0-10)
Distinguir quando comandar vs. liderar ___
Construir coalizões com céticos construtivos ___
Comunicar estratégia de forma mobilizadora ___
Diagnosticar e gerenciar resistências ___
Negociar com stakeholders poderosos ___
Gerar vitórias de curto prazo ___
Sustentar mudança ao longo do tempo ___
Desenvolver sucessores ___

Reflexão:

  1. Qual capacidade é meu maior desafio? _______________
  2. Qual teria maior impacto no sucesso de meu projeto? _______________
  3. Que ação concreta tomarei esta semana? _______________

ERROS CLÁSSICOS EM MUDANÇA ORGANIZACIONAL

Os 7 Pecados Capitais

  1. Comandar profissionais autônomos (em vez de liderar)
  2. Não criar urgência suficiente (pressupor que é óbvio)
  3. Coalizão fraca ou homogênea (só aliados naturais)
  4. Subcomunicar por fator de 10 (achar que comunicou quando apenas começou)
  5. Declarar vitória prematuramente (celebrar fundação como se fosse edifício completo)
  6. Ignorar resistências políticas (tratar tudo como “técnico”)
  7. Não ancorar na cultura (mudança desaparece quando líder sai)

REFERÊNCIAS ESSENCIAIS

Kotter, J. P. (2012). Leading Change. Harvard Business Review Press.

Prosci (2006). ADKAR: A Model for Change in Business, Government and Our Community. Prosci Learning Center.

Fisher, R., Ury, W., & Patton, B. (2011). Getting to Yes: Negotiating Agreement Without Giving In (3rd ed.). Penguin Books.

Mintzberg, H. (2017). Managing the Myths of Health Care. Berrett-Koehler Publishers.

McKinsey & Company (2021). Mobilize your organization with a powerful change story.


LEMBRE-SE

“Planos estratégicos não se implementam sozinhos. Entre a estratégia formulada e a estratégia realizada existe um abismo que somente a liderança pode atravessar.”

“O erro mais comum de oficiais em gestão de saúde é tentar COMANDAR onde precisam LIDERAR. Profissionais de saúde não são subordinados que executam ordens — são experts autônomos que precisam ser mobilizados.”

“Médicos e dentistas não respondem a ordens da mesma forma que soldados. Sua lealdade primária é à profissão, não à organização. Liderar esses profissionais exige abordagem radicalmente diferente do comando tradicional.”

“Resistência não é necessariamente irracional. Stakeholders resistem porque a mudança REALMENTE prejudica seus interesses — e eles têm direito de defendê-los. Negociação baseada em interesses, não imposição.”

“Líderes tipicamente subcomunicam por fator de 10. Você acha que comunicou quando apenas começou. Múltiplos canais, repetição consistente, comportamentos alinhados.”

“Mudança organizacional é trabalho político tanto quanto técnico. Líderes que evitam política organizacional por considerá-la ‘suja’ frequentemente fracassam em implementar até as melhores ideias.”

“A maioria das transformações leva anos, não meses. Capacidade de sustentar esforço ao longo do tempo — especialmente quando resultados ainda não são visíveis — distingue líderes que transformam de líderes que apenas anunciam transformações.”

“Na PMDF, rotatividade de liderança (2-3 anos) exige construir mudança que sobreviva ao próprio líder: coalizões duráveis, sistemas modificados, cultura transformada, sucessores preparados.”